pontopm
Generic selectors
Somente correspondências exatas
Pesquisar no título
Pesquisar no conteúdo
Post Type Selectors

Capítulo 11

A Fé*

Devo falar neste capítulo sobre o que os cristãos entendem por fé. Grosso modo, a palavra “fé” é usada no cristianismo em dois sentidos, ou em dois níveis, e tratarei primeiro de um deles e depois do outro. No primeiro sentido, significa simplesmente a crença – aceitar ou considerar verdadeiras as doutrinas do cristianismo. Isso é bastante simples. O que provoca confusão nas pessoas – pelo menos provocava confusão em mim – é que os cristãos consideram a fé, nesse sentido, uma virtude. Eu queria saber como ela poderia ser uma virtude – o que existe de moral ou imoral em acreditar ou não acreditar num conjunto de princípios? Eu costumava dizer: é óbvio que todo homem são aceita ou rejeita uma determinada afirmação não por querer, mas por haver provas que a confirmem ou refutem. Se ele se enganar sobre as provas, isso não fará dele um homem mau, apenas um homem não muito inteligente. Se ele achar que as provas indicam que a afirmação é falsa, e mesmo assim tentar acreditar nela, isso será mera estupidez.

Bem, ainda sou dessa opinião. O que eu não via então — e muita gente ainda não vê — é o seguinte: eu supunha que, a partir do momento em que a mente humana aceita algo como verdadeiro, vai automaticamente continuar considerando-o verdadeiro até encontrar um bom motivo para reconsiderar essa opinião. Na verdade, eu partia do pressuposto de que a mente é completamente regida pela razão, o que não é verdade. Vou dar um exemplo. Minha razão tem motivos de sobra para acreditar que a anestesia geral não me asfixiará e que os cirurgiões só começarão a operar quando eu estiver completamente sedado. Isso, porém, não altera o fato de que, quando eles me prendem na mesa da operação e me cobrem a face com sua tenebrosa máscara, um pânico infantil toma conta de mim. Começo a pensar que vou me asfixiar e que os médicos vão começar a cortar meu corpo antes que eu perca a consciência. Em outras palavras, perco a fé na anestesia. Não é a razão que me faz perder a fé: pelo contrário, minha fé é baseada na razão. São, isto sim, a imaginação e as emoções. A batalha se dá entre a fé e a razão, de um lado, e as emoções e a imaginação, de outro.

Quando você pára para pensar, começa a lembrar de vários exemplos como esse. Um homem tem provas concretas de que aquela moça bonita é uma mentirosa, não sabe guardar segredos e, portanto, é alguém em quem não se deve confiar. Entretanto, no momento em que se vê a sós com ela, sua mente perde a fé no conhecimento que possuí e ele pensa: “Quem sabe desta vez ela seja diferente”, e mais uma vez faz papel de bobo com ela, contando-lhe segredos que deveria guardar para si. Seus sentidos e emoções destruíram-lhe a fé em algo que ele sabia ser verdadeiro. Ou tomemos o exemplo do garoto que aprende a nadar. Ele sabe perfeitamente bem que o corpo não vai necessariamente afundar na água: já viu dezenas de pessoas boiando e nadando. Mas a questão principal é se ele continuará crendo nisso quando o instrutor tirar a mão, deixando-o sozinho na água -ou se vai repentinamente deixar de acreditar, entrar em pânico e afundar.

A mesma coisa acontece no cristianismo. Não quero que ninguém o aceite se, na balança da sua razão, as provas pesarem contra ele. Não é aí que entra a fé. Vamos supor, entretanto, que a razão de um homem decida a favor do cristianismo. Posso prever o que vai acontecer com esse sujeito nas semanas seguintes. Chegará um momento em que receberá más notícias, terá problemas ou será obrigado a conviver com pessoas descrentes; nesse momento, de repente, suas emoções se insurgirão e começarão a bombardear sua crença. Haverá, além disso, momentos em que desejará uma mulher, sentir-se-á propenso a contar uma mentira, ficará vaidoso de si mesmo ou buscará uma oportunidade para ganhar um dinheirinho de maneira não totalmente lícita; nesses momentos, seria muito conveniente que o cristianismo não fosse a verdade. Mais uma vez, suas emoções e desejos serão artilharia pesada contra ele. Não estou falando de momentos em que ele venha a descobrir novas razões contrárias ao cristianismo. Essas razões têm de ser enfrentadas, e isso, de qualquer modo, é um assunto completamente diferente. Estou falando é dos meros sentimentos que se insurgem contra ele.

A fé, no sentido em que estou usando a palavra, é a arte de se aferrar, apesar das mudanças de humor, àquilo que a razão já aceitou. Pois o humor sempre há de mudar, qualquer que seja o ponto de vista da razão. Agora que sou cristão, há dias em que tudo na religião parece muito improvável. Quando eu era ateu, porém, passava por fases em que o cristianismo parecia probabilíssimo. A rebelião dos humores contra o nosso eu verdadeiro virá de um jeito ou de outro. E por isso que a fé é uma virtude tão necessária: se não colocar os humores em seu devido lugar, você não poderá jamais ser um cristão firme ou mesmo um ateu firme; será apenas uma criatura hesitante, cujas crenças dependem, na verdade, da qualidade do clima ou da sua digestão naquele dia. Consequentemente, temos de formar o hábito da fé.

O primeiro passo para que isso aconteça é reconhecer que os sentimentos mudam. O passo seguinte, se você já aceitou o cristianismo, é garantir que algumas de suas principais doutrinas sejam mantidas deliberadamente diante dos olhos de sua mente por alguns momentos do dia, todos os dias. É por esse motivo que as orações diárias, as leituras religiosas e a frequência aos cultos são partes necessárias da vida cristã. Temos de nos recordar continuamente das coisas em que acreditamos. Nem essa crença nem nenhuma outra podem permanecer vivas automaticamente em nossa mente. Têm de ser alimentadas. Aliás, se examinarmos um grupo de cem pessoas que perderam a fé no cristianismo, me pergunto quantas delas o terão abandonado depois de convencidas por uma argumentação honesta. Não é verdade que a maior parte das pessoas simplesmente se afasta, como que levadas pela correnteza?

Volto-me agora para a fé no seu segundo sentido, o mais elevado: será o assunto mais difícil de que terei tratado até aqui. Para abordá-lo, retorno ao tópico da humildade. Você há de se lembrar que eu disse que o primeiro passo em direção à humildade era dar-se conta do próprio orgulho. Acrescento agora que o segundo passo consiste em empenhar um esforço dedicado para praticar as virtudes cristãs. Uma semana não basta. As coisas vão de vento em popa na primeira semana. Experimente seis semanas. Até lá, depois de sucumbir e voltar à estaca zero, ou ter decaído para um ponto ainda inferior, teremos descoberto algumas verdades a respeito de nós mesmos. Nenhum homem sabe realmente o quanto é mau até se esforçar muito para ser bom. Circula por aí a ideia tola de que as pessoas virtuosas não conhecem as tentações. Trata-se de uma mentira deslavada. Só os que tentam resistir às tentações sabem quão fortes elas são. Afinal de contas, para conhecer a força do exército alemão, temos de enfrentá-lo, e não entregar as armas. Para conhecer a intensidade do vento, temos de andar contra ele, e não deitar no chão. Um homem que cede à tentação em cinco minutos não tem a menor ideia de como ela seria uma hora depois. Por esse motivo, as pessoas más, em certo sentido, sabem muito pouco a respeito da maldade. Na medida em que sempre se rendem, levam uma vida protegida. É impossível conhecer a força do mal que se esconde em nós até o momento em que decidimos enfrentá-lo; e Cristo, por ter sido o único homem que nunca caiu em tentação, é também o único que conhece a tentação em sua plenitude – o mais realista de todos os homens. Pois bem. A principal coisa que aprendemos quando tentamos praticar as virtudes cristãs é que fracassamos. Se tínhamos a ideia de que Deus nos impunha uma espécie de prova na qual poderíamos merecer passar por tirar boas notas, essa ideia tem de ser eliminada. Se tínhamos a ideia de uma espécie de barganha — a ideia de que poderíamos cumprir a parte que nos cabe no contrato e deixar Deus em dívida conosco, de tal modo que, por uma questão de justiça, ele ficasse obrigado a cumprir a parte dele —, ela deve ser eliminada também.

Creio que quantos possuem uma vaga crença em Deus acreditam, até se tornarem cristãos, nessa ideia da prova ou da barganha. O primeiro resultado do verdadeiro cristianismo é o de reduzir essa ideia a pó. Quando a veem reduzida a pó, certas pessoas chegam à conclusão de que o cristianismo é um embuste e dele desistem.
Essa gente parece imaginar que Deus é extremamente simplório. Na verdade, ele sabe de tudo isso. Uma das intenções do cristianismo é justamente reduzir essa ideia a pó. Deus está à espera do momento em que você vai descobrir que jamais conseguirá tirar a nota mínima para passar nesse exame, e não poderá jamais deixá-lo em dívida.

Com isso vem outra descoberta. Todas as faculdades que você possui, sua faculdade de pensar ou de mover os membros a cada momento, lhe são dadas por Deus. Mesmo se dedicasse cada momento de sua vida exclusivamente ao seu serviço, você não poderia dar-lhe nada que, em certo sentido, já não lhe pertencesse. Logo, quando uma pessoa diz que faz algo para Deus ou lhe dá algo, é como se fosse uma criança pequena que interpelasse o pai e lhe pedisse: “Papai, me dê cinquenta centavos para lhe comprar um presente de aniversário.” E claro que o pai dá o dinheiro e fica contente com o gesto do filho. Tudo é muito bonito e muito correto, mas só um imbecil acharia que o pai lucrou cinquenta centavos com a transação. Quando o homem descobre essas duas coisas, Deus pode realmente começar a agir. E depois disso que a verdadeira vida começa. O homem agora está desperto. Podemos passar a discorrer sobre o segundo sentido da palavra “fé”.

* Páginas: 184 a 191.

LEWIS, C. S., 1898-1973.
Cristianismo puro e simples: Edição revista e ampliada, com nova introdução, dos três livros: Broadcast Talks, Christian Behaviour e Beyond Personality /C. S.LEWIS; Tradução Álvaro Oppermann e Marcelo Brandão Cipolia; Revisão de tradução Luiz Gonzaga de Carvalho Neto e Marcelo Brandão Cipolla; Revisão técnica Ornar Alves de Souza – 3ª. ed. – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. 300 p.